Muito mais do que dois mártires

Publicado: 20 de dezembro de 2010 em Violência
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Por Sarah Pulliman Bailey

Uma das nações mais envolvidas em missões transculturais de evangelização e assistência social, a Coréia do Sul passa por um momento de crise em sua vocação missionária. O assassinato de dois obreiros coreanos, mortos no Afeganistão em julho passado quando realizavam trabalhos evangelísticos e humanitários naquele país, provocou uma forte reação de diversos setores – inclusive, no governo e dentro da própria Igreja nacional. No centro dos debates, questiona-se a validade da obra missionária em regiões de alto risco e o custo humano que ações do gênero podem acarretar. A situação pode fazer com que a Coréia do Sul, que ocupa a segunda posição mundial no envio de missionários ao exterior – são cerca de mil por ano, um contingente menor apenas que o comissionado pelas igrejas dos Estados Unidos –, mude de posição em relação às missões cristãs ao redor do mundo.

Líderes evangélicos sul-coreanos falam em adotar uma postura de “cautela e sabedoria” no trato da questão. Pode ser apenas eufemismo para designar um recuo de proporções imprevisíveis. “O remorso tomou conta da Igreja”, reconhece o pastor Park Eun-jo, da Igreja Presbiteriana Saemmul, influente comunidade com mais de 5 mil fiéis. Localizada na capital Seul, foi essa congregação que patrocinou a viagem de um grupo de 20 missionários ao Afeganistão – um dos quais, o pastor Bae Hyung-kyu, de 42 anos, acabou morto. Lá, eles se juntaram a outros três compatriotas antes de cair nas mãos dos seqüestradores. O episódio ocasionou uma saraivada de críticas ao movimento missionário da nação asiática.

“Neste momento, é difícil prever o efeito quantitativo que os fatos causarão na obra missionária”, comenta Steve Moon, diretor do Instituto de Pesquisas para Missões da Coréia. Ele diz que, na melhor das hipóteses, a situação será uma oportunidade para o amadurecimento: “As igrejas precisarão pensar em novas estratégias, e tanto elas quanto as agências missionárias deverão se preparar mais.” Para ele, a motivação que moveu o grupo ao Afeganistão é “pura”, mas classifica sua ação de temerária. “Eles não foram realistas”, aponta. Moon receia que o incidente possa frear o ímpeto missionário dos crentes coreanos.

Longa agonia – O seqüestro, ocorrido no último dia 19 de julho, foi uma agonia que durou seis semanas – até agora, o mais longo episódio do gênero envolvendo estrangeiros em território afegão desde a queda do regime talibã, formado por radicais islâmicos que governou o país com mão de ferro até 2001. Apeados do poder graças à intervenção militar comandada pelos Estados Unidos depois do 11 de Setembro, os talibãs mantêm-se à margem do governo constitucional do país e o combatem com táticas de guerrilha. Os coreanos foram capturados por insurgentes na localidade de Qara Bagh, na província de Ghazni, quando viajavam de ônibus pela estrada que une Cabul, a capital, a Kandahar, importante reduto talibã. Considerada área de alto risco pelo próprio governo do presidente Hamid Karzai, a região é conflagrada e exige segurança redobrada de quem trafega por ali. Mas o ônibus que transportava o grupo, composto em sua maioria por mulheres, não tinha qualquer escolta e foi alvo fácil.

Iniciou-se, então, uma complicada negociação envolvendo a milícia talibã, autoridades do Afeganistão e o governo da Coréia do Sul. Karzai, sob pressão americana, recusou-se a libertar prisioneiros ligados aos talibãs em troca dos missionários. O terror aumentou seis dias depois, quando os rebeldes executaram o pastor Bae, provocando comoção internacional e intensos protestos do povo coreano. No dia 30 de julho, outro refém, Shing Sun-min, de 29 anos, foi assassinado. A partir dali, a Coréia do Sul resolveu negociar diretamente com intermediários indicados pelos seqüestradores. Seul prometeu atender exigências, como a retirada dos 200 soldados que o país mantinha em território afegão como integrantes da força multinacional de paz comandada pelos Estados Unidos. Os seqüestradores, então, começaram a entregar os reféns. Finalmente, no dia 30 de agosto, o restante do grupo que ainda estava em cativeiro foi liberto.

Versões de que um resgate de 20 milhões de dólares teria sido pago não foram confirmadas. De concreto, além da retirada das tropas coreanas, o saldo do seqüestro foi o anúncio de que as viagens de missionários coreanos ao Afeganistão – e, por extensão, a outras regiões sob conflito – estão canceladas. É uma guinada e tanto para uma Igreja acostumada à ousadia. Segundo o sociólogo americano Robert Wuthnow, da Universidade de Princeton, a diferença entre a obra missionária desenvolvida por seu país e aquela encetada pelos coreanos é justamente esta. “A maioria dos voluntários americanos para missões de curto prazo se dirige a locais relativamente seguros, onde executam atividades assistenciais. Muitas igrejas da Coréia do Sul, ao contrário, se dispõem a enviar grupos às regiões mais perigosas do mundo.”

Mea culpa – No entanto, dirigentes do movimento missionário da Coréia vêm questionando a motivação e o propósito das igrejas com relação às missões em larga escala. O mea culpa parece ter atingido boa parte da Igreja asiática. Após a libertação dos reféns, mais de 100 pastores, incluindo representantes do Concílio Cristão da Coréia e do Concílio Nacional de Igrejas Coreanas, realizaram uma reunião de oração e arrependimento. Após o ato, emitiram uma declaração com a relação de supostos erros cometidos pelas igrejas do país devido à sua paixão por missões. “Por causa do excesso de entusiasmo, adotamos grandes slogans, como ‘superioridade’, ‘conquista’ e ‘competição’”, reconhece o manifesto, “em vez de compreensão, aceitação e serviço aos que partem para o campo”.

O seqüestro não afetou apenas os cristãos. A atitude de Seul, que aceitou a pressão do Talibã, provocou polêmica e críticas veladas dos governos americano e afegão.“Os Estados Unidos defendem, com certeza, a separação entre Igreja e Estado”, afirmou Scott Moreau, professor de missões e estudos transculturais da Wheaton College, de Illinois (EUA). “Negociar em nome de uma agência missionária levantaria inúmeras questões espinhosas”, alerta.

O incidente teve outras conseqüências. O governo da Coréia determinou a volta do que já estavam lá no Afeganistão. Estima-se que, no momento do seqüestro, haviam outros 120 obreiros cristãos no país. “Eles preenchiam lacunas muito importantes. Suas ausências serão sentidas”, lamenta Rob Werner, obreiro cristão em serviço na Ásia central. Para o pastor Geoff Tunnicliffe, diretor internacional da Aliança Evangélica Mundial (WEA, sigla em inglês), existe atualmente um grande debate sobre o futuro do trabalho de missionários coreanos em situações perigosas ou complexas. “Precisamos discutir as implicações da decisão tomada pelo governo da Coréia do Sul de proibir a ida de trabalhadores cristãos para o Afeganistão”, declarou Tunnicliffe, na esteira dos desdobramentos da crise.

Enquanto isso, obreiros de outras nacionalidades em ação no território afegão estão reavaliando sua presença lá e os cuidados com a própria segurança. “Não sei de ninguém que tenha ido embora por ameaças de seqüestro”, continua Rob Werner. “Mas talvez as pessoas percam a coragem para vir. Não é possível ficar aqui muito tempo sem se entregar à soberania de Deus e às promessas dele de nos proteger”, sentencia.

(Tradução: Cláudia Ziller Faria. Adaptação: Carlos Fernandes)

Provação traz despertamento

Para Ronaldo Lidório, um dos mais respeitados missionários transculturais brasileiros, a ênfase evangelística da Igreja da Coréia do Sul tem raízes espirituais e históricas. “Aquele país também martirizou missionários estrangeiros que lhe foram enviados”, conta. “Essa herança sacrificial explica parte de sua vocação hoje”. Pastor presbiteriano e membro da AMEM (A Missão de Evangelização Mundial), Lidório passou dez anos atuando junto aos konkombas, povo que vive em Gana, na África. Ali, traduziu o Novo Testamento para a língua nativa e deixou uma sólida igreja plantada. Hoje, ele coordena projetos missionários na região amazônica. Com tanto conhecimento de causa, ele sabe que nenhuma provação pode extinguir a obra missionária. Ronaldo Lidório conversou com CRISTIANISMO HOJE:

CRISTIANISMO HOJE – Acontecimentos traumáticos no campo missionário, como o seqüestro e a morte de cristãos sul-coreanos no Afeganistão, costumam ter grande repercussão. Como obreiro transcultural, de que modo o senhor vê a questão?

RONALDO LIDÓRIO – Missionários normalmente são alertados para os principais fatores de risco antes de se dirigirem aos campos onde atuarão – mas isso não dilui a dor da perda e o sentimento de incerteza em situações de opressão, seqüestro e morte. Percebo que o martírio daqueles que levam a mensagem da cruz sempre produz pelo menos um efeito na Igreja de Cristo: o despertamento de mais pessoas comprometidas a orar e a se envolver com a pregação do Evangelho.

A Igreja Evangélica sul-coreana tem tradição missionária cristã, o que não é comum no contexto oriental. Como explicar esse fenômeno?

É importante ressaltar que vários missionários estrangeiros também foram martirizados no início da evangelização da Coréia do Sul, o que certamente contribui para que a Igreja daquele país tenha desenvolvido essa força missionária que vemos em nossos dias. Algo semelhante ocorre na China, hoje. A Coréia do Sul experimentou um processo de evangelização, plantio e crescimento de igrejas jamais visto naquela região asiática, em nossa geração. Houve um derramar da graça de Deus de maneira impar sobre a Coréia do Sul, cuja Igreja é uma das mais ativas no envio missionário transcultural. A abundante evangelização, associada às atividades sociais, formam a herança missionária deixada na Coréia do Sul – e a essa herança associaram-se a disciplina, a valorização da honra e do sacrifício, elementos presentes naquela cultura. O efeito tem sido uma força missionária determinada, conduzida pela oração e com bom preparo. (Carlos Fernandes)
Parentes choram a morte dos obreiros: clamor popular varreu a Coréia do Sul.
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