Perdidos no meio das mudanças

Publicado: 20 de dezembro de 2010 em Evangélica
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Para o sociólogo Christian Smith, a nova geração de adultos cristãos enfrenta o paradoxo entre a liberdade e a indecisão.
Por Katelyn Beaty

O liberal francês Alexis de Tocqueville escreveu, no século 19, que “quando há uma ausência de autoridade, tanto na religião ou na política, os homens logo se amedrontam com a independência ilimitada com a qual são confrontados e com a inquietação constante de tudo”. Suas palavras atravessaram quase 200 anos para ganhar novo significado nessa tal de pós-modernidade. As duas áreas citadas pelo autor do clássico Democracia na América – coincidência ou não, justamente aquelas que, costuma-se dizer, não se deve discutir – parecem padecer da falta de valores mais sólidos. Por outro lado, a multiplicidade de oportunidades e a decadência dos modelos clássicos de poder têm moldado uma geração em crise consigo mesma e com a figura da autoridade. No mais das vezes, Deus acaba indo de roldão na confusa mistura de ego, consumo e imaturidade que caracteriza a vida dos cristãos do século 21, principalmente aqueles que estão chegando agora à idade adulta.

O sociólogo Christian Smith, da Universidade Notre Dame e diretor do Centro para os Estudos da Religião e da Sociedade, é um observador arguto deste momento da sociedade ocidental e da Igreja. Ele toma emprestado o termo cunhado pelo colega Jeffrey Jensen Arnett para definir essas pessoas na faixa entre os 18 e os 25 anos e que possuem mais opções do que em qualquer geração anterior. “Isso molda seriamente as crenças e práticas religiosas dos adultos emergentes”, diz o estudioso. No seu entender, trata-se de um dos grupos etários mais autoindulgentes, confusos e ansiosos, já que são conduzidos a uma “adultolescência” que impede a maioria de assumir compromissos com pessoas e instituições.

O conceito da adolescência prolongada é fenômeno típico das sociedades industrializadas, mas também se observa em nações emergentes como o Brasil. Este período da vida apresenta características específicas. Ele é marcado, notadamente, pela exploração da identidade, pela instabilidade, pelo autofoco e pela percepção de múltiplas possibilidades. “É mesmo uma época de transição, de vivência do sentimento de in-between (algo como estar entre duas coisas)”, explica Smith. A prioridade nesta fase, concordam os estudiosos, é a entrada no mundo adulto e a construção de uma estrutura de vida estável. Pesquisas mostram que, nos Estados Unidos, a média do casamento mudou de 21 anos para as mulheres e 23 para os homens, nos anos 1970, para 26 e 26, respectivamente, em 1996. O padrão manteve-se na mesma proporção em relação à chegada do primeiro filho. Já em Portugal – outra nação em que os estudos demográficos já incluem a questão da adultez emergente –, a idade média do ingresso na paternidade deslocou-se dos 23,5 anos para os 28 anos.

Autor de livros como Souls in transition (Almas em transição) e Soul searching (O esquadrinhar da alma), Smith identifica seis tipos religiosos de adultos emergentes, que vão dos irreligiosos aos espiritualmente comprometidos (ver quadro). A fé cristã é o traço comum à maioria, já que herdaram-na dos pais ou a adquiriram nas primeiras fases da vida – o que difere, e muito, é a maneira como ela interfere em sua existência.

CRISTIANISMO HOJE – Quais são as mudanças culturais que têm produzido essa geração de adultos emergentes?

CHRISTIAN SMITH – Basicamente, a transformação social verificada a partir dos anos 1960 e 70 é que levou a isso. Agora, há uma proporção bem maior de jovens que passam mais anos estudando, período que vai muito além do ensino fundamental e médio. Eles dedicam anos a fio a cursos superiores e pós-graduações. Com isso, tendem a esperar mais tempo para assumir os compromissos da vida adulta, como definição da carreira e constituição de família. Em outras palavras, querem ficar “livres” por mais tempo. Outro fator são as mudanças na economia global, que faz com que os empregos sejam mais instáveis e imprevisíveis. Atualmente, você não pode se acomodar num mesmo emprego por toda sua vida, ao contrário do que acontecia nas gerações anteriores. Talvez você seja transferido, talvez seja despedido, talvez haja necessidade de uma nova capacitação – e todos esses fatores fazem com que os jovens fiquem sempre numa expectativa de algo que eles mesmos não sabem exatamente o que é.

A característica básica desse grupo é a falta de compromisso?

De certa forma, tudo o que esse adulto emergente quer é ficar desvairado e livre, pulando de um parceiro sexual a outro, ou de uma atividade a outra, por exemplo. Conforme terminam seus anos de adolescência, os jovens entendem que basicamente eles mais uns dez anos para se divertir antes de ter a sua própria família e se adequar ao seu “verdadeiro emprego”.

Como essas transições afetam as atitudes religiosas dos adultos emergentes?

A maioria do que acontece na vida destes adultos emergentes trabalha contra compromissos sérios com a fé e também em relação ao estabelecimento de raízes numa determinada confissão ou congregação. Muitos dos adultos emergentes são desconectados de coisas religiosas. A mobilidade geográfica e social, a vontade de querer ter várias opções, de se soltar e viver a vida são fatores que reduzem o compromisso mais sério com a fé. Mesmo aqueles que tiveram uma criação religiosa buscam uma identidade diferente da tradição familiar. Há também um segmento bem maior de jovens adultos que é abertamente hostil a qualquer religião. Como são autoindulgentes, acham que não precisam de religião para que se tornem boas pessoas. O mundo do adulto emergente é muito fechado em si. Adultos mais velhos geralmente são os seus chefes ou professores, aos quais têm de provar continuamente seus méritos. Para alguns adultos emergentes, esse caos ajuda a descobrir que a religião pode ser um antídoto extremamente útil. E somente alguns procuram a fé em Deus para lhes dar estabilidade; a maioria nem chega a buscar nada desse tipo. Mas, somente vão perceber isso após passarem por muitas dificuldades.

Os adolescentes, conforme sua argumentação em Soul Searching, têm uma desconexão estrutural do mundo adulto. Isso vai necessariamente repercutir nas fases seguintes de sua vida?

O fator principal são os pais. Por bem ou por mal, os pais são extremamente importantes em moldar a trajetória de fé dos seus filhos. O papel dos pais é primordial e não somente em falar aos seus filhos sobre o que crêem, mas viver o que falam. Existe um número expressivo de adultos emergentes que foram criados em famílias seriamente comprometidos com a religião e que seguem em frente com o que lhes foi ensinado. Mas a cultura do adulto emergente coloca muitas pressões deteriorantes nas práticas de fé. Devo frisar que sou um sociólogo, e não um consultor prestando um serviço para a Igreja. Todavia, em termos das implicações do nosso trabalho para as igrejas, as duas palavras-chave são engajamento e relacionamentos. Não podemos apenas realizar programas ou classes ou entregar as pessoas para o pastor de jovens. As mudanças verdadeiras acontecem quando as pessoas estão se relacionando.

Sendo assim, que tipo de respostas a Igreja pode oferecer às ansiedades desse segmento?

Conectar-se com os adultos emergentes vai exigir mais criatividade e iniciativa do que estou vendo nesta atual conjuntura. Em primeiro lugar, é preciso identificar que existe essa fase da vida. Não é que simplesmente temos adolescentes a depois temos os adultos – ou seja, não se trata do simples passar dos anos. Esse período de transição complexa é uma construção recente, historicamente falando, e precisa ser abordado. O que significa isso? E como isso se encaixa na formação da fé? As igrejas precisam perceber que a demografia e a família estão mudando. Se a Igreja tem como função primordial ministrar somente para famílias de núcleo tradicional – homem, mulher e seus filhos vivendo sob o mesmo teto –, segmentos inteiros não serão alcançados. Isso vai requerer mais autoconsciência e respostas a perguntas como “O que temos falado” e “O que estamos fazendo aqui”. Necessariamente, será preciso avaliar criticamente a linguagem que se usa, os programas que se oferece, para que esses jovens não se sintam excluídos e possam descobrir interesses além do culto de louvor tradicional e da escola dominical.

Os adultos emergentes gostam da igreja emergente, aquela que reúne-se de maneira mais informal e critica a institucionalização das organizações religiosas?

A reposta final seria sim. As igrejas emergentes descobriram algo que promove uma conexão melhor com essa onda de pessoas jovens. A ênfase desse movimento, se de fato for um movimento – já que sua presença, até agora, ainda é pequena – é uma resposta de bastante sucesso ao que está acontecendo na cultura do adulto emergente. Aonde houver esta igreja, ela será bem mais intrigante e atraente para um adulto emergente do que uma igreja que tenha uma abordagem mais tradicional. Mas esse pessoal está prestando bastante atenção ao que lhes está sendo oferecido. Se, então, a igreja emergente não tem alguma coisa que a diferencia de maneira genuína daquilo que os adultos emergentes já possuem de sobra, eles não vão prestar atenção nem por dois segundos.

Sua pesquisa parece gerar dúvidas sobre estudos anteriores que constataram que uma educação mais avançada corrói as crenças religiosas…

Sim. Não é que os estudos anteriores estavam errados. O problema é que o mundo está realmente mudando. De fato, a faculdade não mudou nada em termos do resultado da corrosão da fé dos jovens. Talvez, em alguns casos, até sirva para fortalecer a crença de alguns. Existe um número crescente de professores evangélicos nas faculdades, além da presença de grupos universitários religiosos e ministérios cristãos atuando ali, num engajamento intelectual que seria repelido tempos atrás. A cultura também mudou: a espiritualidade agora é mais aceitável do que em décadas passadas. A maioria dos professores sabe que não podem falar coisas estupidamente antirreligiosas na sala de aula e escapar impunes. Não estamos na década de 1950. Isto não quer dizer que os pais podem ficar despreocupados por completo quando seus filhos vão para a faculdade – mas é que agora existem fatores que permitem que as comunidades de fé possam providenciar o suporte necessário para os jovens que estão na faculdade.

Da rejeição ao compromisso

Em seu livro Souls in transition, escrito em parceria com Melinda Lundquist Denton, Christian Smith identifica as características de alguns grupos de adultos emergentes:

Tradicionalistas comprometidos – São aqueles que abraçam uma forte fé religiosa, cujas crenças sabem articular bem e também praticam ativamente. As religiões às quais se filiam tendem a ser fundamentadas em tradições de fé já estabelecidas, históricas.

Aderentes seletivos – Muitas vezes, receberam uma criação solidamente religiosa, mas são mais criteriosos no que se refere à adoção das crenças da sua tradição. Eles discordam ou ignoram os preceitos de sua fé quando o que está em jogo é a liberdade pessoal – não deixam que a religiosidade interfira, por exemplo, em seus comportamentos

Espiritualmente abertos – Não têm um compromisso específico com alguma fé religiosa, mas apesar disso são abertos a ouvir sobre assuntos espirituais. A sua atitude pode ser resumida com o seguinte raciocínio: “Provavelmente, deve haver mais alguma coisa além disso tudo”

Religiosamente indiferentes – Tendem a se distrair e investem tempo com outras coisas na sua vida, e assim não têm tempo para se dedicar à religião. Simplesmente, a fé não é uma prioridade nas suas vidas. Ao contrário de alguns aderentes seletivos, os indiferentes religiosos não sentem nenhuma culpa verdadeira ou remorso pela sua falta de interesse em práticas devocionais
De acordo com estudos modernos, jovens adultos tendem a tentar esticar liberdades da adolescência.
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